Diário da Região: Henrique Meirelles defende regras claras para favorecer investimentos em infraestrutura

Veja entrevista do ex-presidente do BC ao Diário da Região, de São José do Rio Preto (SP), sobre política, economia e Copa do Mundo.


28 de janeiro de 2014

Diário da Região (São José do Rio Preto, SP)

Henrique Meirelles foi o presidente de Banco Central que ficou mais tempo no cargo na história da instituição. Foram oito anos durante o Governo Lula, quando adotou medidas que ele mesmo chama de duras, mas de efeito positivo a longo prazo. Quando iniciou sua gestão em 2003, o dólar estava próximo de R$ 4 e a taxa básica de juros (Selic) foi a fixada a 25% ao ano.

Antes de ocupar a presidência do BC, Meirelles havia sido eleito deputado em Goiás, pelo PSDB, como o mais votado, com 183 mil votos. Como tinha experiência no mercado financeiro internacional, tendo passado por instituições como o Bank of Boston e o Global Banking, foi convidado para integrar o governo petista.

Deixou o partido e se dedicou à gestão pública até 24 de novembro de 2010, quando afirmou que era “a hora certa para concluir sua missão”. Agora, ele quer voltar à política. No último sábado, Meirelles esteve em Rio Preto, onde lançou sua candidatura ao Senado pelo PSD, partido criado pelo ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Leia o que ele falou ao Diário:

Diário da Região – O senhor ficou oito anos a frente da direção do Banco Central. Qual foi o maior aprendizado que tirou desta experiência?
Henrique Meirelles – Foi um momento importante para o Brasil. Em 2003 vivíamos uma forte crise, com inflação de 17%, uma dívida pública quase insustentável e títulos domésticos que eram emitidos com indexação ao dólar. As reservas também eram muito baixas. Havia uma crise enorme e ao invés de tentar contemporizar adotamos medidas radicais para solucionar o problema, de fato. Subimos fortemente a taxa de juros para controlar a inflação e o Governo anunciou uma nova meta de superávit primário de 4,25%. No primeiro momento houve um choque. A atividade econômica caiu e o desemprego aumentou. Mas, com o tempo, houve resultados positivos em relação à confiança. Em consequência, os empresários passaram a achar que dava certo não só baixar os preços como também confiar mais na economia. Os investidores nacionais e estrangeiros começaram a comprar os títulos brasileiros. Tudo isso permitiu ao país resolver algumas questões do déficit fiscal e começasse a crescer. Foi a partir daí que se deu a grande expansão da economia brasileira. A experiência mais rica é que no momento em que se toma as atitudes certas com visão de longo prazo tem de se enfrentar a crítica de curto prazo. Se você tem confiança de que está fazendo a coisa certa, o importante é enfrentar as críticas e seguir em frente. Esta foi a grande lição.

Diário – Na sua opinião, o que mais mudou na política econômica desde que o senhor deixou a presidência do Banco Central no final de 2010?
Meirelles – Eu sigo a cultura chamada de “Boas práticas dos Bancos Centrais”, que é de não comentar o trabalho feito por sucessores ou antecessores. Então, eu não comento as políticas feitas, independentemente de ser positivo ou negativo. É o que seguem os ex-presidentes de Bancos Centrais de todo o mundo.

Diário – A taxa Selic (que rege os juros no Brasil) aumentou recentemente pela sétima vez consecutiva e está em 10,5%. Embora menor do que na época em que o senhor era presidente do Banco Central, causa muita discussão em todos os setores da economia. O que o senhor tem a dizer sobre este índice?
Meirelles – Essa questão também se enquadra na mesma prática que eu disse na pergunta anterior. No momento em que eu disser qual a Selic ideal estarei entrando na política do Banco Central. Então, eu também não faço esse tipo de observação.

Diário – A presidente Dilma Rousseff afirmou no Fórum Econômico de Davos na semana passada que a inflação está sob controle (2013 fechou em 5,91%). Mas a porcentagem está bem próxima do teto da meta, que é de 6,5%. Como o senhor vê esta situação?
Meirelles – A presidente disse que o Governo vai perseguir o centro da meta, o que é importante. É essencial que o Governo, não só pela política monetária, mas também pela política fiscal, busque o centro da meta inflacionária. Não é adequado ficar perto do teto da meta. Eventualmente existem fatores diversos que podem levar a inflação para cima ou para baixo do centro. Nos oito anos em que fiquei no Banco Central houve três anos em que a inflação esteve abaixo do centro, e por cinco anos foi acima do centro. Mas é importante que a política seja feita no sentido que se fique no centro da meta.

Diário – No ano passado houve períodos em que a cotação do dólar bateu recordes (R$ 2,44 em agosto). Como o senhor acha que será o comportamento da moeda americana este ano?
Meirelles – Não dá dúvidas de que existe uma tendência global depreciação do dólar. Mas isso não deve ser confundido com movimentos de curto prazo, como na semana passada, que foi um momento de aversão a riscos em função de um indicador não muito positivo da economia chinesa, principalmente pelo problema cambial da argentina. Isso fez com que os investidores do mundo todo passassem a ser mais cautelosos, o que depreciou mais facilmente diversas moedas como o real e a lira turca, entre outras. Mas este é um fator que esperamos que seja transitório.

Diário – O que essencialmente poderia ser mudado na economia brasileira e que pode ser feito de modo mais prático e imediato?
Meirelles – Acho que para crescer o Brasil precisa ter regras claras e previsíveis que favoreçam os investimentos. Por exemplo: é importante que as regras de licitação para investimentos em infraestrutura de fato atraiam um volume de recursos suficiente para atender as necessidades do País. Isso porque o Estado brasileiro hoje não tem condições de bancar com recursos públicos as necessidades de investimento. E para que o setor privado possa investir é importante que exista o retorno adequado e a segurança da estabilidade e previsibilidade das regras. Isso também vale para outros setores da economia como indústria e comércio. É importante que o País invista em produtividade, portanto, os incentivos governamentais não devem ser voltados apenas para o volume, mas também para aumento da capacidade de se produzir mais barato. Ou seja, vender mais, com mais qualidade e custo menor. Esses fatores, somados a uma confiança na política fiscal que leve a acreditar que a trajetória da dívida pública vai cair, são os ingredientes básicos para o crescimento do Brasil hoje.

Diário – Essa clareza à qual o senhor se refere não existe no momento?
Meirelles – Esta não é, necessariamente, uma opinião individual, mas sim o que ouço de investidores no mundo inteiro. E isso fez parte do esforço da presidente (Dilma Rousseff) lá em Davos, em passar na sua comunicação. Mas precisa também de ação.

Diário – Como fica sua participação no Conselho Público Olímpico de 2016 (convite feito pela presidente Dilma Rousseff), já que agora o senhor está ligado à política?
Meirelles – Sou o presidente do Comitê Público Olímpico, que é uma atividade não remunerada e de prestação de serviços. Inclusive na última sexta-feira presidi uma reunião no Rio de Janeiro. Portanto, continuo normalmente na função, com reuniões semestrais.

Diário – Com base em sua experiência em atividades de gestão econômica nos últimos anos, que conselho o senhor tem para empresários da região?
Meirelles – Eu diria que os empresários hoje, mais do que nunca, têm de se preocupar com dois fatores: custo e eficiência. Ao contrário da última década, quando basicamente o empresário tinha de se focar em aumentar a produção e o volume para atender a uma demanda crescente, agora é preciso estar atento à eficiência e custo. Isso significa focar não só na metodologia de trabalho, nas compras, produção e vendas, mas também escolher muito bem o que vai oferecer, e com qualidade.

Diário – Vamos ter Copa do Mundo no Brasil e há muitas críticas em relação ao atraso nas obras e o caos dos aeroportos. O que o senhor espera do Mundial?
Meirelles – Espero que a questão dos estádios seja resolvida, principalmente o de Curitiba (que corre o risco de não integrar a Copa por atrasos no cronograma) e que os obras dos aeroportos sejam concluídas a tempo. Estamos na corrida contra o tempo. O mesmo penso em relação ao transporte terrestre, pois tudo envolve o tema da mobilidade. Mas, me parece que os estádios mais importantes estarão prontos. Acho que os alertas são importantes e devem ser levados a sério. E tudo o que envolve a Copa do Mundo é um grande aprendizado para as Olimpíadas de 2016.

 

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