Meio ambiente

Sem inspeção veicular, poluição em São Paulo mata mais

Novo estudo mostra efeitos da contaminação do ar na cidade. Programa de inspeção implantado pelo ex-prefeito Gilberto Kassab, segundo a USP, evitou centenas de mortes e internações


06 de dezembro de 2017

Considerando apenas os veículos movidos a diesel, a redução de poluentes evitou 1.515 internações hospitalares e 584 mortes por problemas respiratórios em 2011.

 

 

Viver por 30 anos respirando o ar da cidade de São Paulo deixa os pulmões de uma pessoa como os de um fumante leve, que consome cerca de dez cigarros por dia. A conclusão, de acordo com reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, é de um estudo realizado na Universidade de São Paulo (USP), liderado pelo médico patologista Paulo Saldiva.

A situação, segundo outro estudo da própria USP, se agravou nos últimos anos, após decisões equivocadas da gestão anterior da Prefeitura de São Paulo, que interrompeu – e não retomou – os programas de inspeção veicular ambiental e Ecofrota (que promovia a utilização de ônibus menos poluentes na cidade), adotados durante o mandato do ex-prefeito Gilberto Kassab.

Estudo da Faculdade de Medicina da USP, que considerou apenas os veículos movidos a diesel que fizeram a inspeção em 2011, revelou que com a redução de poluentes emitidos por esses veículos foram evitadas 1.515 internações hospitalares e 584 mortes por problemas respiratórios. A relação custo-benefício é enorme, já que isso equivale a uma economia estimada de mais de US$ 79 milhões para o sistema público de saúde, valor que é 20 vezes maior do que o custo das inspeções.

De acordo com estimativas do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), caso a inspeção fosse adotada em todos os 39 municípios da Região Metropolitana de São Paulo esses números poderiam ser triplicados. O mesmo estudo aponta que o ganho com a inspeção, apenas em 2011, foi equivalente à retirada dos poluentes emitidos por uma frota de mais de 1,4 milhão de veículos, sendo 1,2 milhão de automóveis, 87 mil motocicletas e 36,3 mil veículos movidos a diesel.

Em novembro, porém, o atual prefeito de São Paulo, João Doria, sinalizou que irá sancionar o Projeto de Lei 300/2017, que prevê a retomada da inspeção veicular na cidade até o fim de 2018. O novo projeto saiu de pauta na Câmara Municipal no início do mês passado mas, mesmo sem data para votação, deve ser aprovado com apoio da maioria dos parlamentares, informou reportagem de O Estado de S. Paulo.

O projeto em discussão na Câmara Municipal prevê multas de até R$ 5 mil a veículos que não realizarem a inspeção e estipula a exigência de inspeção também em veículos em circulação na cidade, mesmo que registrados em outros municípios. Tal mudança atingiria automóveis empregados em transporte de passageiros contratados por meio de aplicativos, táxis, fretados e veículos de carga que descarregam no Município.

O então prefeito Gilberto Kassab em um ônibus da Ecofrota

Inspeção Veicular

O Programa de Inspeção Veicular implementado por Kassab verificava todos os veículos da cidade e foi implantado gradativamente, a partir de 2008, inicialmente avaliando as condições da frota de veículos movidos a diesel, motocicletas e carros movidos a álcool, gás ou gasolina registrados no Detran entre 2003 e 2008. Em 2010, todos os carros, motos, ônibus e caminhões com placa da cidade de São Paulo foram obrigados a passar pela inspeção ambiental veicular.

Até novembro de 2012 foram feitas mais de 13 milhões de inspeções em mais de 10,4 milhões de veículos. Com o programa, até o final 2012 não houve nenhum dia em que os níveis de emissão de monóxido de carbono ultrapassaram os padrões do CONAMA, segundo relatórios de qualidade do ar divulgados pela CETESB.

O cenário de poluição atmosférica de São Paulo fica ainda pior pelo fato de gestão anterior da Prefeitura de São Paulo não ter adotado a maior parte das medidas de combate à poluição previstas na Lei de Mudanças Climáticas. A lei, proposta em 2009 pela gestão Gilberto Kassab, foi aprovada pela Câmara.

Impacto cumulativo

O trabalho da USP citado na reportagem do jornal O Estado de S. Paulo analisa corpos levados ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), para medir o carbono no pulmão e investigar a vida dessas pessoas. “O que esse estudo está mostrando é o quanto respirar o ar de São Paulo é equivalente a fumar e tem impacto cumulativo”, explicou ao Estado de S. Paulo a bióloga Mariana Veras, do Laboratório de Poluição do Ar da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). A história de cada pessoa, o tempo que ela passava no trânsito, se fumava ou estava exposta a fumantes, ajuda a demonstrar o impacto da poluição. “Estamos buscando a correlação entre a quantidade de preto no pulmão, o padrão de vida e o tempo em transporte”, diz Mariana.

Cerca de 2 mil pulmões foram avaliados e 350, que tiveram maior detalhamento da história de vida, foram selecionados para compor o estudo, que deve ter mais dados divulgados ao longo das próximas semanas. De acordo com dados da ONU Meio Ambiente e da Organização Mundial de Saúde, cerca de 7 milhões de pessoas morrem por ano em decorrência de poluição do ar, e mais de 80% das cidades têm níveis de poluição acima dos recomendáveis. Em São Paulo, os níveis de partículas finas inaláveis (material particulado ou MP 2,5) está 90% acima dos níveis seguros, que são de 10 microgramas/m³. A concentração média anual da cidade é de 19 microgramas/m³.

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