Há dez anos, um morador da Grande SP gastava em média 150 litros de água por dia. Hoje, o consumo é de 175 litros, 65 a mais do que o recomendado pela ONU (Organização das Nações Unidas).

Folha de S. Paulo

Disparada do consumo, produção em ritmo lento e desperdício de água. Esses são os ingredientes da crise de abastecimento que vem se delineando há uma década na Grande São Paulo, revela levantamento da Folha a partir de dados da Sabesp.

Entre 2004 e 2013, o consumo de água nos 33 municípios da região metropolitana abastecidos pela companhia aumentou 26%, enquanto a produção cresceu apenas 9%.

No mesmo período, cerca de 200 mil novos habitantes chegaram anualmente à região, com padrões de consumo cada vez mais elevados.

Há dez anos, um morador da Grande SP gastava em média 150 litros de água por dia. Hoje, o consumo é de 175 litros, 65 a mais do que o recomendado pela ONU (Organização das Nações Unidas).

A Sabesp adota critérios diferentes para calcular o consumo per capita e diz que ele diminui nos últimos anos, sendo hoje de 161 litros de água por dia.

Para Paulo Ferreira, professor de engenharia do Mackenzie, o consumo per capita calculado pela Folha é mais fidedigno.”O fato é que a demanda está maior do que a oferta e só conseguimos administrar essa situação quando chove muito”, diz.

Ele considera que o principal motivo para a disparada do consumo per capita é o aumento da renda. “As pessoas passaram a usar mais lava-roupas, lava-louças e chuveiros. Quando o padrão de vida evolui, o consumo também aumenta”, afirma.

Estudo orientado pelo professor de gestão ambiental da USP Pedro Luiz Côrtes mostra que um paulistano consome em média 27% mais água do que um alemão e 9% mais do que um francês.

Dentro das cidades, a disparidade também é grande. Um morador da zona central de São Paulo consome até cinco vezes mais água do que um na periferia, diz o estudo.

“O sistema de captação, tratamento e distribuição [da Sabesp] opera no limite, e até acima dele para atender essa demanda”, diz Cortês.

Para Rubem Porto, professor de engenharia da USP, o aumento do consumo foi provocado pela substituição de hidrômetros antigos e quebrados e pela redução dos “gatos” (ligações irregulares).

“A água que era consumida e não era medida passou a ser medida e cobrada pela Sabesp”, diz o especialista.

DESPERDÍCIO

Ainda que tenha passado por essa regularização, a rede da Sabesp tem um desperdício de água considerável.

Em 2013, 25% da água se perdia no trajeto entre as represas e as residências.

Embora esse índice tenha já tenho sido pior -em 2004, beirava os 35%-, ainda está longe do ideal.

Cidades do Japão perdem 11% da água que captam. A meta da Sabesp é chegar aos 18% de desperdício até 2020.