O desmonte do etanol

Em artigo no jornal O Estado de S. Paulo, o especialista Adriano Pires critica a política energética que vem desestimulando o uso do álcool como combustível.


04 de março de 2014

O Estado de S.Paulo – Adriano Pires*

Adriano Pires: etanol inexpressivo

Adriano Pires: etanol inexpressivo

Assistimos hoje ao desmonte do etanol, e é bom lembrar que há seis anos ele era visto como a grande estrela da política energética brasileira. Era a época em que o presidente Lula anunciava que o País seria o maior produtor de combustíveis renováveis, uma “Arábia Saudita Verde”. Mas a profecia de Lula não se realizou.

Esta não é a primeira grande crise que o biocombustível brasileiro atravessa. No início da década de 70, após o primeiro choque do petróleo, a alta do preço dos combustíveis no mercado internacional levou o Brasil a uma crise em seu balanço de pagamentos. Como uma das respostas, o governo brasileiro lançou, em 1975, o Proálcool, com o objetivo de diminuir as importações de petróleo. O programa foi um total sucesso: a proporção de carros a álcool, no total de automóveis de ciclo Otto produzidos no País, aumentou de 0,46%, em 1979, para 26,8%, em 1980, atingindo um teto de 76,1% em 1986. A partir do contrachoque do petróleo, em 1986, quando os preços do barril de petróleo voltaram aos níveis de 1973, o governo abandona as políticas públicas que levaram ao êxito do Proálcool, olhando só para os fatores conjunturais, e com isso joga por terra o maior programa mundial de produção de álcool combustível do mundo.

No início da década de 2000, o crescimento da conscientização ambiental e o fato de o preço da gasolina ter acompanhado a tendência do mercado internacional a partir de 1998 ressuscitaram o álcool como combustível, desta vez batizado de etanol. A grande novidade desta nova fase foi a chegada ao mercado dos carros bicombustíveis (flex fuel), que hoje representam 59% do total da frota brasileira.

Naquele momento, o próprio governo alardeava que o etanol seria o principal combustível brasileiro e a gasolina, o seu substituto. A euforia e as certezas em relação ao etanol eram de tal ordem que as novas cinco refinarias anunciadas pela Petrobrás só produziriam diesel e zero de gasolina. A crise econômica mundial de 2008 e o pré-sal mudaram a história e o etanol foi mais uma vez esquecido pelo governo.

Para que a crise econômica fosse apenas uma “marolinha”, o governo implanta um modelo de estímulo ao consumo no Brasil cujo carro-chefe era a venda de automóveis. Além de incentivar a venda de carros pela ampliação do crédito, o governo passa a controlar de forma virulenta os preços da gasolina, o que levou a estatal a deixar de ganhar R$ 5,6 bilhões de 2008 a 2013.

Não bastasse essa política de preços irresponsável e inconsequente, o governo feriu de morte o etanol quando desonerou totalmente a Petrobrás de pagar a Cide, em junho de 2012. A partir daí, o etanol perdeu totalmente a sua competitividade ante a gasolina. O resultado dessa perda pode ser visto na redução das vendas de etanol hidratado e no aumento do consumo de gasolina. As vendas de etanol hidratado caíram de 16 milhões de m³, em 2009, ano de consumo recorde do biocombustível, para 11 milhões de m³, em 2013, 34% menor. Considerando que todo o crescimento da frota flex fuel, de 2003 a setembro de 2013, fosse abastecido só por etanol hidratado, teríamos um potencial de consumo em 2013 de 40 milhões de m³, aproximadamente quatro vezes o consumo atual.

Dá para entender uma política de governo que desonera e incentiva o consumo de um combustível sujo e importado, em detrimento de um renovável e limpo, num momento em que o mundo está cada vez mais atento às chamadas mudanças climáticas?

Erramos ao matar o álcool, acertamos com a volta do etanol. Será que vamos voltar a cometer a bobagem de deixar o etanol – importantíssimo para a economia do País, que gera empregos e tecnologia, colabora para o desenvolvimento do agronegócio, gera divisas e poderia colocar o Brasil na vanguarda da produção de combustíveis renováveis – ficar pequeno, inexpressivo na nossa matriz energética?

Será que o atual governo vai continuar a insistir em destruir os dois maiores ícones do setor de energia no Brasil: a Petrobrás e o etanol? A conferir.

*ADRIANO PIRES é diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie)

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